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Fisioterapia05 de outubro de 2026

Palmilha postural: para quem funciona?

Na primeira consulta no Espaço Ana Gil, realizamos uma avaliação completa e minuciosa da saúde do paciente, incluindo a verificação dos captadores de postura e o apoio do pé, o que já costuma apontar, na primeira consulta, se há necessidade de palmilha postural. Por isso não é comum, na nossa prática, uma dor que volta sempre, pois nosso método próprio de avaliação e tratamento visa identificar a real causa da dor e direciona o tratamento para a solução da causa dos sintomas. Mas já atendi pacientes que, por já terem usado outro tipo de palmilha sem resultado, ou por outro motivo, decidiram não fazer a de reprogramação postural mesmo indicada, e voltaram a nos procurar depois, quando a dor reapareceu.

Quando a palmilha é indicada, ela nunca entra como tratamento isolado no meu raciocínio clínico, mas como um adjuvante que sustenta o alinhamento conquistado nas sessões, evitando que o mesmo padrão de sobrecarga no pé recrie a dor que acabamos de tratar.

Por que o pé interfere no resultado do tratamento

O pé é a base de apoio do corpo, e qualquer alteração na forma como ele toca o chão pode se propagar até o joelho, o quadril e a lombar. Um ajuste na coluna e outras estruturas corrige a tensão daquele momento, mas se o pé continuar mandando o mesmo padrão de sobrecarga a cada passo, o corpo recria parte do desequilíbrio que acabamos de trabalhar. Por isso avaliamos o pé desde a primeira consulta.

Palmilha de reprogramação postural: o que ela realmente faz

A palmilha de reprogramação postural não é só feita sob medida. É uma palmilha fina, com componentes de até 3 milímetros que estimulam a propriocepção, informação que o corpo manda ao cérebro sobre sua posição no espaço, como mostrou um estudo de 2024 no Journal of Functional Morphology and Kinesiology, com melhora sustentada no equilíbrio postural.

O que a ciência diz sobre o tratamento

Um estudo publicado em 2014 no Journal of Manipulative and Physiological Therapeutics testou manipulação da coluna, uma técnica manual com princípio parecido ao que usamos na osteopatia, em pacientes com dor lombar crônica. Ao longo de cinco sessões em quatro semanas, os pacientes que usaram palmilha personalizada junto com a manipulação mantiveram melhores resultados de alinhamento da coluna ao longo do tempo do que os que usaram uma palmilha simples, sem personalização, sugerindo que a palmilha ajudou a sustentar o efeito do tratamento manual em vez de ele se perder entre uma sessão e outra.

Esse achado conversa com uma metanálise de 2025, publicada na Disability and Rehabilitation, que reuniu sete ensaios clínicos sobre palmilha e dor lombar: o benefício real apareceu justamente nos modelos personalizados, moldados sob medida, e não nas palmilhas prontas. Juntos, os dois estudos sustentam algo que já vejo na prática: tratar a coluna sem cuidar da base que sustenta o corpo tende a trazer um resultado que não dura, e a palmilha certa ajuda a manter o que a osteopatia conquista.

Casos que ilustram bem isso

Um paciente, professor universitário, que corria bastante nas férias, chegou com dor no joelho, com diagnóstico de tendinopatia da pata de ganso. Identificamos ser causada por alteração na pisada, e já indicamos a palmilha para evitar que a dor voltasse. Ele decidiu não fazer naquele momento. No ano seguinte, ao voltar a correr na rua com mais frequência, a dor reapareceu. Tratamos em poucas consultas, fizemos a palmilha, e ele voltou a correr sem mais se preocupar com a tendinopatia no joelho e suas dores recorrentes.

Outra paciente conviveu por mais de dois anos com dor lombar. Durante a avaliação encontrei um bloqueio na articulação sacroilíaca, causado por uma pequena diferença no comprimento das pernas, irradiando dor até a região glútea. Em poucas consultas, com a palmilha corrigindo essa diferença, a dor e a irradiação desapareceram.

Os dois casos mostram essa amplitude: a palmilha pode ajudar tanto na coluna quanto em outras regiões, como joelho, quadril e o próprio pé.

O que fazer, na prática

  • Se você tem dor na coluna, no quadril, no joelho ou no pé sem resultados satisfatórios até agora, vale buscar um osteopata que trabalhe com posturologia e palmilhas de reprogramação postural, para uma avaliação completa do seu caso.
  • A palmilha entra como parte do plano, não como substituto das sessões.
  • Como o pé muda com o tempo, o uso e o peso corporal, vale reavaliar a palmilha periodicamente, seguindo as orientações do profissional que acompanha o seu caso.

Perguntas frequentes

Todo tratamento de coluna precisa de avaliação do pé?

Não necessariamente, mas quando existe uma alteração real no apoio do pé, ela pode interferir no resultado de qualquer tratamento manual, por isso essa avaliação faz parte do nosso protocolo desde a primeira consulta.

A palmilha de reprogramação postural é igual a uma palmilha comum?

Não. Ela costuma ser mais fina, com componentes de poucos milímetros posicionados para estimular a propriocepção, e não apenas para dar sustentação ou preencher o calçado.

Toda pessoa com pé chato ou perna mais curta precisa de palmilha?

Não necessariamente. Só quando a avaliação identifica que essa característica está realmente gerando sobrecarga em outra região do corpo.

Em quanto tempo sinto diferença usando a palmilha?

Varia de pessoa para pessoa, mas a ideia é que o resultado do tratamento manual se sustente por mais tempo à medida que o corpo se adapta à palmilha.

Se a dor na sua coluna, no quadril, no joelho ou no pé ainda não teve o resultado que você esperava, talvez falte olhar para o que sustenta o seu corpo por baixo, a cada passo que você dá.

Referências científicas

  • Rosner AL, Conable KM, Edelmann T. Influence of foot orthotics upon duration of effects of spinal manipulation in chronic back pain patients: a randomized clinical trial. Journal of Manipulative and Physiological Therapeutics. 2014;37(2):124-140. PMID: 24412249
  • Lin Z, Cheng J, Hua L, Han X, Wang D, Huang Y. Effect of foot orthoses on pain and disability in patients with low back pain: a meta-analysis of randomized controlled trials. Disability and Rehabilitation. 2025;48(3):629-645. doi:10.1080/09638288.2025.2545590
  • Messina G, Francavilla VC, Lima F, et al. Effects of Proprioceptive Insoles and Specific Core Training on Postural Stability for Preventing Injuries in Tennis. Journal of Functional Morphology and Kinesiology. 2024;9(1):34. doi:10.3390/jfmk9010034
Foto de Dra. Ana Gil

Escrito por

Dra. Ana Gil

Fisioterapeuta · Diretora do Espaço Ana Gil

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