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Fisioterapia14 de agosto de 2026

Cansado de conviver com a dor cervical? Talvez você nunca tenha tratado da maneira correta

Não é raro eu ouvir, no consultório ou até na recepção da clínica, uma versão parecida desta frase: “Doutora, essa dor no pescoço já faz parte de mim, nem lembro mais o que é ficar sem ela.” Se você se identifica, sabe do que estou falando: aquela dor cervical que vai e volta, ou que nunca foi embora de vez, há meses, às vezes anos, e que atrapalha o sono, a concentração, até o humor.

E se serve de consolo, você não está sozinho. Em 2020, a dor cervical afetou 203 milhões de pessoas no mundo, com maior prevalência entre 45 e 74 anos e mais frequente em mulheres, segundo o estudo de referência global sobre o tema (The Lancet Rheumatology, 2024). E a projeção é de que esse número cresça mais de 30% até 2050.

O que realmente causa a dor cervical

Na prática do consultório, raramente encontro uma causa única para a dor cervical. Postura mantida por muito tempo, celular, computador, tempo de tela, tensão acumulada, estresse, até a forma como você dorme, tudo isso conversa entre si e vira dor cervical, que costuma se espalhar para os ombros, a parte alta das costas e às vezes até virar dor de cabeça.

O que a ciência mostra, e o que confirmo nos meus pacientes, é que a dor cervical crônica melhora de verdade quando o tratamento vai além da técnica manual aplicada em consultório. Uma revisão de estudos de 2023 reuniu exercícios de fortalecimento, exercícios que reeducam a forma como os músculos do pescoço trabalham e práticas de atenção plena, e o resultado foi claro: quando esse conjunto é seguido dentro de um programa direcionado, o efeito na dor é maior (Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy, 2023). Já quando a técnica manual é usada isolada, sem exercícios específicos e orientações que o paciente leva para o dia a dia, o resultado tende a ser mais limitado, mostrou outra revisão da mesma revista, publicada em 2025.

Ou seja, o padrão se repete, exatamente como acontece com a dor lombar: o que resolve de verdade não é a técnica isolada dentro da consulta, é o programa completo, que une atendimento, exercícios específicos e mudanças de hábito no dia a dia.

Um caso que ilustra bem isso

Um paciente me procurou com dor cervical que o acompanhava havia mais de cinco anos, mesmo depois de vários tratamentos. Na avaliação pelo meu Método MAG, de avaliação e intervenção terapêutica, encontramos disfunções biomecânicas nos ombros somadas à postura inadequada no trabalho e horas seguidas no computador, tudo alimentando a mesma dor. O plano incluiu quatro consultas de osteopatia, duas de acupuntura, exercícios para reeducar a postura e a mecânica dos ombros, e orientações de ergonomia para notebook, cadeira e demais equipamentos de trabalho, além de como se posicionar ao longo do dia. Oito meses depois, ele segue sem dor.

O que fazer, na prática

  • Dor cervical que não melhora sozinha em poucos dias merece orientação. Quanto mais cedo, melhor a resposta, e menos chance de complicações em outras partes do corpo.
  • Movimento é aliado. Exercícios regulares e bem orientados previnem e tratam a dor cervical melhor do que alongamentos esporádicos e intensos.
  • Ajuste a altura da tela na linha dos olhos. Isso evita erguer o queixo ou curvar o pescoço para frente por horas seguidas.
  • O travesseiro e a posição para dormir pesam mais do que parece. Um pescoço mal posicionado e um travesseiro alto a noite inteira sustentam a tensão do dia seguinte.

Perguntas frequentes

Dor cervical pode causar dor de cabeça ou tontura?

Sim. A tensão acumulada na região cervical pode se espalhar e desencadear dor de cabeça e, em alguns casos, sensação de tontura.

Quanto tempo leva para melhorar a dor cervical?

Varia de pessoa para pessoa, mas o que mais influencia é identificar o que está causando a dor, com uma avaliação completa e bem direcionada, e tratar essa causa pela raiz. O resultado também depende da dedicação do paciente ao programa, que vai além do que é feito em consulta, incluindo os exercícios e orientações sugeridos para o dia a dia. Na nossa clínica, é comum conseguirmos resultados satisfatórios entre 5 e 8 consultas de osteopatia.

Travesseiro alto ou baixo ajuda na dor cervical?

O ideal é o travesseiro que mantém o pescoço alinhado com a coluna, nem alto demais, nem baixo demais, isso varia conforme a posição em que você dorme.

Dor cervical sempre precisa de exame de imagem?

Nem sempre. Na maioria dos casos, a avaliação clínica já indica a causa e o caminho do tratamento. O exame de imagem entra quando há sinais que pedem uma investigação mais específica.

Se a sua dor cervical vai e volta, ou nunca foi embora de vez, vale a pergunta: você já entendeu a causa dela, ou só tem aprendido a conviver com ela?

Referências científicas

  • GBD 2021 Neck Pain Collaborators. Global, regional, and national burden of neck pain, 1990-2020, and projections to 2050: a systematic analysis of the Global Burden of Disease Study 2021. The Lancet Rheumatology. 2024;6(3):e142-e155.
  • Mueller J, Weinig J, Niederer D, Tenberg S, Mueller S. Resistance, Motor Control, and Mindfulness-Based Exercises Are Effective for Treating Chronic Nonspecific Neck Pain: A Systematic Review With Meta-Analysis and Dose-Response Meta-Regression. Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy. 2023;53(8):420-459.
  • Rossettini G, Falsiroli Maistrello L, et al. Effectiveness of Manual Joint Mobilization Techniques in the Treatment of Nonspecific Neck Pain. Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy. 2025;55(3):173-192.
Foto de Dra. Ana Gil

Escrito por

Dra. Ana Gil

Fisioterapeuta · Diretora do Espaço Ana Gil

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